terça-feira, 30 de julho de 2013

Em busca do caminho do meio


dezinfluênciasmaisuma 8: Hergé



A fluência das HQs de Hergé, em texto, narrativa e forma, continua precisa mesmo depois de muitas décadas. Há sempre quem queira pinçar elementos da sua obra para fora do contexto da época e condições em que o trabalho foi criado, para fazer acusações grosseiras e, principalmente, superficiais.

Hergé era um homem de boa fé. O tempo só lhe fez mais maduro para defender com clareza e simplicidade sua visão livre de dogmas e patrulhamentos ideológicos. O mundo de Tintin reflete a angústia do eterno teatro da idiotice humana e a liberdade frágil dos que trafegam nesse palco, investidos de inocência.


Os mais de cinquenta anos de trabalho resultam em diferentes fases, mas certamente o grande marco divisório tanto para Hergé como para os quadrinhos, especialmente a chamada banda desenhada, ou estilo europeu, é Le Lotus Bleu (O Loto Azul). Se antes desse livro Tintin viaja pelo mundo apenas para reproduzir a visão ingênua, mas estereotipada, que o catolicismo burguês alimentara no jovem Hergé, a partir dele o jovem repórter se abre para uma visão verdadeiramente cristã e humanista: somos todos irmãos e é apenas nossa própria mesquinhez materialista que nos nega vivermos em paz uns com os outros. 

Ouvindo um pouco o próprio Hergé, famoso por seu silêncio profundo, em trechos de uma entrevista a Numa Sadoul, para Les Cahiers de la Bande Dessinée, em 1978:

- O que é principalmente apaixonante, eu penso, em nossa época, é seguir a evolução da arte, de tentar descobrir talentos autênticos, de não rejeitar nada a priori. Claro, as formas mudam, a linguagem se adapta, a sensibilidade se transforma, mas, fundamentalmente, é sempre o mesmo problema para o criador: se definir, buscar o próprio equilíbrio, exprimir sua própria condição de mundo. Assim, para mim, não existe diferença fundamental entre Berrocal e um mármore grego, entre Schoeffer e Miquelângelo. 

- Eu não gosto do lado político, do lado patrulheiro engajado das coisas. Eu sou um homem do caminho do meio, eu penso. Ao menos eu tento ser... Eu sou de Gêmeos e minha tendência é de escutar os prós e os contras, de ser mais observador que ator. Em um conflito, mesmo que me diga respeito, eu me esforço sempre em buscar a verdade e escutar com atenção meu interlocutor. Nós não encontramos a verdade com frequência, nem mesmo nunca: talvez encontremos, de tempos em tempos, a NOSSA verdade, a verdade momentânea. Porque tudo isso é muito fugaz. Nós estamos sempre em permanente evolução. Descobri isso para minha grande estupefação.

- Se Tintin é um inveterado escoteiro? Mas por que não? É tão ridículo assim fazer uma boa ação? Amar a natureza? Esforçar-se a ser fiel à palavra dada? Mas felizmente o escotismo de Tintin é temperado pelos companheiros que o cercam. Eu mesmo fui escoteiro: minha patrulha era dos "Esquilos" e meu totem "Raposa Curiosa". E a influência que o escotismo teve em mim eu considero benéfica.

- Tudo mudou depois que terminei Les Cigares du Pharaon (Os Charutos do Faraó). Eu anunciei no Petit Vingtieme que Tintin iria continuar sua viagem para o Extremo Oriente. E nesse momento eu recebi uma carta que me dizia, essencialmente, isto: "- Eu sou padre-professor de estudantes chineses na Universidade Católica de Louvain. Ora, Tintin vai partir para a China. Se você mostrar os chineses como os ocidentais geralmente os representam: se você os mostrar com uma trança que na dinastia manchúria era sinal de escravidão, se você os mostrar astuciosos e cruéis, e se você falar de torturas, então você irá ferir meus estudantes. Por favor, seja prudente: informe-se..." E foi o que eu fiz e o Frei Gosset -era seu nome- me colocou em contato com um de seus estudantes, que era desenhista, pintor, escultor, poeta, e se chamava... Tchang Tchong-Yen. Sim, foi esse o nome que eu dei ao pequeno chinês que Tintin encontra e que se torna seu amigo, e que ele reencontrará mais tarde em Tintin au Tibet (Tintin no Tibet). Mas foi no momento de Le Lotus Bleu que eu descobri um mundo novo. Para mim, até então, a China era com efeito, povoada de multidões de olhos puxados, pessoas muito cruéis que comiam ninhos de andorinha... Eu exprimi tudo isso em um diálogo curto entre Tintin e Tchang. Então, descobri uma civilização que eu ignorava completamente e, ao mesmo tempo, tomei consciência de uma espécie de "responsabilidade". Foi a partir dali que me coloquei a pesquisar documentação, a me interessar verdadeiramente pelas pessoas e pelos países a que enviava Tintin. Tudo graças ao meu encontro com Tchang. Eu lhe devo também por ter melhor compreendido o sentido da amizade, da poesia e da natureza... 

- Eu não gosto disso que se diz "barato", nem com pessoas, nem com sentimentos, nem mesmo com objetos. Isso não significa, vamos deixar bem claro, que só as coisas que custam caro, só os mármores raros, só as madeiras de lei, tem valor aos meus olhos. Não, um simples copo de barro pode ser muito belo, um móvel de plástico, também. Aquilo que eu sou sensível é à qualidade. Existem pessoas de qualidade, como existem coisas de qualidade. Mas o que vai acontecer com essa noção de qualidade, agora que caminhamos mais e mais para a produção em série, a produção em massa?...

- É provável que eu esteja buscando um tipo de equilíbrio em meus desenhos. Mas é principalmente inconsciente. O que é consciente, por outro lado, é minha busca pela "lisibilidade". Nada é gratuito: eu descarto os efeitos puramente decorativos ou estéticos. Eu repito, meu único objetivo é ser o mais claro possível. E todo o resto é subordinado. A grande dificuldade nos Quadrinhos é mostrar exatamente o que é necessário e suficiente para o entendimento da narrativa: nada a mais, nada a menos. 

Lidos os trechos do depoimento de Hergé acima, e refletindo um pouco, fica claro perceber porque a adaptação de Tintin, por Spielberg, para as telas de cinema, resultou tão desastrosa. Para além dos imperativos comerciais e de um filme que mais se parece com assistir alguém jogando sozinho um vídeo-game com bonecos de borracha industrializados, faltou toda a essência de Hergé. Pesado, confuso, excessivo, o filme, apesar de orçamento altíssimo, carece de arte, clareza e identidade. É um caríssimo filme barato. Sem a sensibilidade com que Hergé utiliza o patético como moldura que revela o ser humano, resta apenas a caricatura como armadura sem gente dentro. Fantasmas com máscaras.


Sem título, 1963. 
Óleo sobre tela de Hergé.
Movido por seu interesse pela
arte contemporânea e tendo Van Lint
como seu professor, Hergé irá pintar
37 telas abstratas no início da década
de 60. As pinturas adquiriram rapida-
mente grande valor, mas o próprio
Hergé não considerou que tivesse
realmente o que exprimir nessa área,
abandonando-a. A última aventura,
inacabada, de Tintin, chamava-se
Alpha-Art e era crítica em relação
aos critérios mercadológicos que
dominaram a arte.

dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin
dezinfluênciasmaisuma 4: Monet
dezinfluênciasmaisuma 5: Nine
dezinfluênciasmaisuma 6: Les Nabis
dezinfluênciasmaisuma 7: Mattotti



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