O Homem da Lanterna Mágica



Frame de trecho da participação de Roberto Miller em Planeta Terra








É impossível contar corretamente a história da animação brasileira sem falar do cineasta Roberto Miller.

Miller nasceu em 1923, na cidade de São Paulo, filho de um português correspondente da Reuters no Brasil. Seu nome de registro era Ignácio Maia, mas fez sua carreira chamando-se Roberto - Miller, vindo de seu ídolo da juventude, o músico Glenn Miller


Influenciado pelo escocês radicado no Canadá, Norman McLaren, de quem torna-se discípulo e amigo, marca seu estilo com animações abstratas, desenhadas com pincel e lupa diretamente em película de filme de gelatina removida. 

Sua pesquisa realiza-se principalmente nos aspectos sonoros, rítmicos, de sincronismo e forma, seguindo a tradição dessa técnica criada originalmente pelo neozelandês Len Lye e inspirada pelo movimento alemão do Cinema Absoluto. Esse movimento de animação abstrata (ou não-objetiva) aconteceu na década de 20, representado por artistas como Oskar Fischinger, Hans Richter, Viking Eggeling e Walter Ruttmann. Este último definiria o estilo como "pintura no tempo". 

O impulso fundamental para a carreira de Miller é um estágio de seis meses no National Film Board do Canadá, com McLaren, na década de 50. De volta ao Brasil integra-se ao recém fundado Centro Experimental de Cinema de Animação de Ribeirão Preto, fundado por Rubens Lucchetti e Bassano Vaccarini. Ali realiza Sound SyntheticTill Ton Special, Rock and RollSinfonia ModernaSound Abstract.

A consagração vem com Rumba (1957): medalha de prata no festival de Lisboa.

Entre outros filmes, destacam-se a partir daí: Sound Abstract (medalha de prata no festival Bruxelas/1957, prêmio Saci de São Paulo/1958 e menção honrosa no festival de Cannes/1958), Boogie Woogie (menção honrosa no festival de Cannes/1959), O Átomo Brincalhão (1967), Balanço (1968), Carnaval 2001 (1971), Can-can (1978), Ballet Kalley (1981) e Biscuit (1992).

Miller também fará carreira na criação de títulos de abertura de filmes
Planeta Terra
brasileiros, o que se chama hoje de motion film design. Mas marcou mesmo a minha infância e formação como artista de animação com o programa de tv, produzido pela então mais séria TV Cultura de São Paulo, Lanterna Mágica.


O programa, semanal, era o espaço alternativo para se conhecer a animação canadense, européia, asiática e mesmo a produção da UPA. Ali conheci Co Hoedman, Jiri Trnka, Lotte Reiniger, Escola de Zagreb, John Hallas, McLaren, etc. Fiquei sabendo do brasileiro Yppê Nakashima e por isso fui ao cinema, garoto, vibrar com Piconzé. Durante um período também, próximo ao horário do Lanterna Mágica, era exibida a série clássica de Tezuka: Kimba, o Leão Branco. Ou seja, Roberto Miller abriu as portas das infinitas possibilidades da animação para toda uma geração que não fosse isso estaria limitada a uma reduzida visão conformista. Muchas gracias, Mestre!

Em 1985, dividi com Marcos Magalhães a coordenação da produção do filme coletivo brasileiro Planeta Terra. Marcos ficou com os artistas do Brasil todo, menos São Paulo, que ficaram sob minha responsabilidade. 18 dos 30 artistas eram paulistas. E entre eles, Roberto.
Foi uma delícia poder conhecê-lo e dividir com ele a tela de um filme tão

singular. Para quem quiser conhecer esse filme, colocamos ele no Canal NUPA. Clique na imagem ao lado e aproveite. Ainda quero dedicar um post especificamente pra esse filme, cheio de histórias. Mas é bom lembrar que, além de já ter seus quase 30 anos de idade, foi feito antes da tecnologia digital. Como eu costumo dizer, animação de apaixonado, feita na unha. Não havia glamour em fazer desenho animado. Era coisa de gente fora do eixo mesmo.

Em 1988 fui diretor e organizador do Segundo Encontro Nacional de Profissionais de Animação. Propus e todos aceitaram que criássemos um troféu da própria classe, para homenagear os profissionais que mais tivessem contribuído para a animação brasileira. O nome escolhido para o prêmio foi Lanterna Mágica. E o ganhador, claro, Roberto Miller.



Planeta Terra
Miller morreu dia 16 de Março passado, aos 89 anos. Deixando viúva, dois filhos e duas netas. Um grande artista pra ser lembrado e homenageado sempre.


Comentários

  1. então o Miller era Maia, e Miller em homenagem ao Glenn Miller... incrível! E eu olhava o Roberto e via nele cara de alemão (Müller).

    Céu, o programa da TV Cultura não era "História do Desenho Animado"? Começou a passar em 1972, aos domingos, 20h00, no mesmo horário em que no ano seguinte começou o Fantástico. O apresentador era Irineu de Carli e o professor Ismael dos Santos dava aula de desenho no final.
    Foi nele que vi Betty Boop, Norman McLaren, Piconzé, Sinfonia Amazônica, Winsor mcCay e outros.
    De fato, passava Kimba antes.

    Se não me engano, "Lanterna Mágica" veio depois do fim do HDA, também exibindo desenhos clássicos e experimentais, mas mais focado no cinema e menos infantil, sem prêmios.

    Conheci o Roberto Miller no HDA, quando fui lá receber alguns prêmios, e participar do programa com o Ismael. Eu tinha uns 10 anos. O Roberto era de uma gentileza enorme. Depois o reencontrei dirigindo um programa de entrevistas e, mais tarde, no seu estúdio, na reunião do Planeta Terra.

    Estou mandando para o seu email um folder do HDA, com uma foto com o Roberto, Irineu e Ismael.

    abs
    sp



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  2. Oi João!
    Muchas gracias pelas cópias dos folhetos.

    O programa durou uns 20 anos. Salvo engano, foi lançado como Lanterna Mágica (que eu via com uns 6 anos de idade, portanto antes de 72) e depois passou a se chamar História do Desenho Animado, quando ficou um pouco mais infantil e passou a ter as aulas de desenho do Ismael. E é provável que tenha voltado a se chamar Lanterna Mágica nos últimos anos, conforme você lembra. A verificar.

    De qualquer maneira, são os dois nomes. Mas as biografias do Miller (olha de novo e repara a cara de portuga Maia que ele tem) disponíveis na web, arquivo Folha e livros que tenho aqui (A. Moreno e FDE) registram apenas Lanterna Mágica.
    Fica aí então o registro e a correção para novos textos: o programa se chamou Lanterna Mágica e História do Desenho Animado.

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  3. Depois voltou como Lanterna Magica e eu assistia todos os finais de semana, nao perdia um. Estava ainda no colegio no comeco dos anos 80. Acho que chegou ate 86 ou 87.
    Era realmente fantastico o programa. La vi grandes animacoes de Zagreb, Canadenses , entre outros. Meu programa preferido, que nunca esqueci na vida e gostaria de ver novamente, foi sobre o Anelio Latinni Filho, que fez o Sinfonia Amazonica. O Latinni me inspira ate hoje e eu fico pensando como ele pode ter feito um longa praticamente sozinho. Incrivel, e ninguem sabe dele, infelizmente.
    Lanterna Magica, nos bons tempos da TV Cultura.
    Obrigado por relembrar esse grande programa e o Roberto Miller.

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  4. Muito bom o post!
    Tão profundo, tão diferente do papo que ouço entre os jovens animadores com quem convivo, que só sabem dizer "da hora" e não imaginam nada além de Disney.
    Ótimo saber mais sobre o Homem da Lanterna Mágica.

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  5. Oi, Céu

    ...recentemente estive em um festival de cinema em que conheci algumas obras de Len Lye, que foi um dos homenageados do festival de Grimstad desse ano. Não tinha visto nada dele e foram lá exibidos curtas em película, obras desde os anos 30 até 80, muito interessantes.

    ...me chamou muito a atenção, FREE RADICALS , que me fez lembrar de ti também, por este post e por conta do que já comentara diversas vezes da questão do termo 3D erroneamente aplicado (nesse curta por mais uma técnica que brinca com as dimensões, na animação dos riscos diretos na película).

    Valeu por compartilhar conhecimento, fui atrás de ver as obras dele na programação do festival por lembrar de ter lido aqui o nome dele.

    Grato, gde abraço!

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  6. Oi Roney,
    Não lembro se já coloquei em algum dos posts, mas TODO filme de animação é 4D, porque é uma obra visual baseada nas variações nas 4 dimensões: altura, largura, profundidade e tempo. Tanto profundidade como tempo sendo ilusões dentro do espaço projetado.
    Que bom que o post te abriu alguma porta. Em algum momento preciso rever que caminho vou dar pra este blog, que era mais um suporte para o NUPA. Aceito sugestões.

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  7. PUTZ! Seria para mim uma gratidão sem tamanho saber do programa "HISTORIA DO DESENHO ANIMADO", qual era a música tema do programa.

    Era um solado de bateria (para mim) sensacional.

    Será que algum iluminado pode me dar uma pista?

    De coração,

    Obrigado!

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  8. Olá Tony,
    Essa eu vou ficar te devendo.
    Meu contato com o programa era justamente o Roberto Miller e agora não tenho mais a quem fazer essa pergunta.
    Talvez alguém que leia seu comentário saiba e possa responder.
    Abraço

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    Respostas
    1. Grato pela tentativa. Desculpe a demora em me manifestar!

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